A criança

Uma criança que acabou de ser separada da sua família chega a casa da família de acolhimento com uma sensação de perda, medo e confusão, bem como com um conjunto de comportamentos difíceis aos quais se terá de saber responder. Tudo corre melhor se a família de acolhimento se tiver informado sobre as reacções mais comuns das crianças ou jovens perante o trauma e a negligência, para que estes comportamentos não sejam mal interpretados, considerados patologias graves ou formas de desafio. Ajuda igualmente conhecer o conceito de neuroplasticidade (a capacidade que temos para mudarmos e nos desenvolvermos ao longo da vida), para que a família de acolhimento perceba que, com o acompanhamento certo, as crianças têm uma enorme capacidade de recuperação.

Uma criança que teve cuidadores inconsistentes (ou que viveu numa instituição onde tinha muitos cuidadores) precisou de se adaptar, o que demonstra uma enorme capacidade de resiliência e valentia. Todavia, nem todos os comportamentos que a criança usou para sobreviver serão úteis na sua nova vida em casa, e será preciso tempo, paciência e gentileza até que esta se aperceba de que existem outros modos de lidar com as dificuldades.

A família de acolhimento precisa de conhecer e fazer aquilo a que se chama de parentalidade terapêutica, ou seja, de ter a capacidade de compreender e contextualizar estes comportamentos de sobrevivência, sendo cuidadora e não disciplinadora. A família deve estar consciente de que haverá períodos de regressão e de que a parentalidade corre melhor quando as famílias têm paciência, imaginação e originalidade na resolução de problemas, abandonando os métodos educativos tradicionais.

Tomar conta de crianças que tiveram uma vida complicada não é o mesmo do que tomar conta de crianças que cresceram sem esses desafios, e aprender a conhecer melhor a criança exige tempo e paciência. Criar uma vinculação segura é um processo lento e demorado, tanto da parte dos cuidadores como da criança, devendo estes estar preparados para lidar com as dificuldades e ser capazes de pensar a longo prazo, evitando estratégias inadequadas.

 

AS CRIANÇAS QUE CHEGAM A FAMÍLIAS DE ACOLHIMENTO PARTILHAM CARACTERÍSTICAS ENTRE SI. POR EXEMPLO:

• DIFICULDADE EM LIDAR COM MUDANÇAS, como uma transferência de escola, uma professora nova de ballet, mudança de casa, etc. Como Johanne Lemieux explica, a regra de ouro é “estabilidade de rotinas, de pessoas e de sítios”;

• DIFICULDADE EM LIDAR COM A MORTE ou a doença de alguém próximo ou de um animal de estimação (o que pode fazer reaparecer comportamentos que os cuidadores julgavam ter ajudado a ultrapassar, como birras ou pesadelos);

• DIFICULDADE EM TOMAR DECISÕES;

• DIFICULDADE EM LER PISTAS SOCIAIS (alguns dos exercícios propostos aqui ajudam a integrar a relação entre aquilo a se chamam os dois lados do cérebro);
• REACÇÕES DE MEDO perante coisas simples, bem como a gritos ou por vezes a uma voz mais ríspida;

• PESADELOS ou dificuldade em adormecer sozinho;

• Em adolescentes ou adultos, dificuldade em pôr fim a uma relação, mesmo quando esta não é satisfatória;

• DIFICULDADE EM TOMAR DECISÕES que não sejam para agradar aqueles de quem as crianças ou os adolescentes mais gostam;

• DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM;

• DIFICULDADES DE INTEGRAÇÃO SENSORIAL.

• IDADE EMOCIONAL ABAIXO DA IDADE “REAL” (segundo Johanne Lemieux, a criança terá uma diferença de dois anos a nível emocional em relação à sua idade actual).